5.12.2009

Excesso de ferro na alimentação pode causar doenças

Brasil obriga adição de ferro em farinhas, mas pesquisa revela dano no organismo de quem o consome em maior quantidade
A obrigatoriedade da adição de ferro em farinhas de trigo e de milho, que vigora no País desde 2002, está resolvendo um problema e pode estar criando outro. Ao mesmo tempo em que ajuda a evitar a anemia, a medida pode atuar como fator para o aumento de doenças crônicas, como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares. O alerta é da pesquisadora Juliana Frossard Ribeiro Mendes, autora de um estudo feito no Departamento de Nutrição (NUT) da Universidade de Brasília (UnB). A estudiosa analisou 134 moradores do Distrito Federal, entre 18 e 86 anos de idade, e constatou a relação entre danos provocados a moléculas do organismo e a ingestão de dietas com maior quantidade de ferro. As carnes são alimentos ricos no nutriente. Alimentos como os pães, bolos e biscoitos, que utilizam os farináceos, também contribuem para aumentar o teor de ferro da dieta. Cada participante teve a dieta e a quantidade de ferro no sangue analisados. Então, foram separados entre os 25% que apresentavam os menores níveis do nutriente, e os outros 25% que tinham os maiores índices. “As pessoas com ferritina [proteína que armazena o elemento no organismo] alta e com dietas ricas em ferro, principalmente o ferro que provém das carnes, tiveram mais danos nos lipídios e proteínas corporais”, afirma.

Esse prejuízo às moléculas acontece porque o ferro atua nas reações químicas de formação dos radicais livres. Por isso, quanto maior a presença de ferro, mais substância o organismo tem para catalisar esse processo. Por conseqüência, também eleva os radicais livres. Como é difícil mensurar os radicais no organismo, a solução acaba sendo avaliar seus estragos em lipídios, proteínas e DNA, seus principais alvos. “Com o dano, essas moléculas perdem a função”, explica a pesquisadora. O problema é que estudos têm mostrado uma relação entre o aumento de radicais livres e a maioria das doenças crônicas. Também já foi comprovado que os lipídios danificados podem resultar em doenças cardiovasculares, pois eles se ligam à parede dos vasos sangüíneos e geram inflamações que favorecem a formação de placas nesses locais. Indústrias excedem no acréscimo de ferro

Como não há um limite máximo de adição de ferro estabelecido na legislação, e no intuito de evitar multas, as empresas exageram na fortificação de ferro para que, ao final do prazo de validade, os alimentos ainda conservem a margem mínima de 4,2 miligramas por 100g de farinha. Veja abaixo a média encontrada nos alimentos mais consumidos na população estudada que levam o produto. Foram coletados três exemplares de cada produto, entre as marcas mais vendidas, em seis supermercados de Brasília. Todos os valores se referem a mg de ferro por 100g do alimento.

Os resultados do estudo, a dissertação de mestrado Biomarcadores do estado nutricional de ferro e estresse oxidativo em adultos, foram aceitos para publicação na revista Nutrition – The International Journal of Applied and Basic Nutrition Science.

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